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Calabar, herói desconhecido
completa 370 anos da sua morte
Porto Calvo,
pode ser considerado berço de um dos primeiros heróis brasileiros
que sonhava com um país livre
Mozart Luna e Waldson Costa
Herói ou traidor da Pátria? Este é o dilema e motivo de uma
discussão sobre Domingos Fernandes Calabar, que completou ontem,
dia 22 de julho, exatamente 370 anos de sua morte.
Filho bastardo de Ângela Álvares, uma índia, Calabar lutou junto
com os holandeses contra a dominação portuguesa e recebeu educação
esmerada em Colégios dos Jesuítas, tornando-se um exímio
estrategista militar nos combates ocorridos nos terrenos
acidentados da região. Em sua trajetória de herói ou vilão,
Calabar foi preso, torturado, enforcado e teve seu corpo
esquartejado e colocado em várias partes de sua cidade natal,
Porto Calvo. Tudo isso sob a acusação de traição a Coroa
Portuguesa, que na época estava submetida à Espanha.
Para o representante do Instituto Cultural Maurício de Nassau,
Roelarnd Emiel Steylaeltf, Domingos Fernandes Calabar contribuiu
para que os brasileiros daquela época pudessem ter uma outra opção
de desenvolvimento cultural, econômico e religioso. Roelarnd disse
que em seus estudos não há comprovação de que Calabar realmente
tenha obtido o posto de oficial do exercito holandês. “Muito coisa
se perdeu com o passar do tempo. Principalmente, devido à
intervenção portuguesa que tinha interesse de apagar todos os
vestígios da contribuição dos holandeses para o Brasil”, colocou
Roelarnd.
O Instituto é uma ONG, fundada no Brasil com sede em Brasília e
que tem como patrono o príncipe Mauricio de Nassau II, filho da
rainha da Holanda. A entidade é uma das responsáveis que tenta
resgatar toda a história da permanência dos Holandeses no Brasil.
ACORDO - Segundo Roelanrd Emiel a saída dos holandeses não foi bem
uma vitória dos portugueses em campos de batalhas, mas sim fruto
de um acordo onde o Reino de Portugal pagou 80 toneladas de ouro a
Companhia das Índias, que era um grupo formado por 17 Câmara
Distritais da Holanda, que haviam decidido buscar novas riquezas
no Brasil. “Esse ouro foi pago durante 22 anos e os holandeses que
aqui estavam foram para os Estados Unidos, onde fundaram Nova York
e outros estados”, disse Roelanrd Emiel ao acrescentar o apreço
holandês pelo Brasil. “O príncipe Mauricio de Nassau tinha uma
grande estima pelo Brasil e se referia a estas terras como sendo o
seu país. Ele trouxe o estudo universitário, urbanização de
cidades como Olinda e Recife e, principalmente, tratava bem o
povo”, expôs. “Calabar também era assim: uma pessoa que amava o
Brasil e que via na colonização portuguesa uma forma de exploração
das riquezas naturais sem fins de desenvolvimento”, afirmou
Roelanrd.
Uma das obras marcantes da presença dos holandeses no Brasil é o
Forte Orange, localizado está na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco,
é uma magnífica construção militar com mais de 300 anos e que
resiste até hoje. Já em Porto Calvo pouco restou da época da
presença dos holandeses. Apenas a igreja Matriz de Nossa Senhora
da Apresentação, continua de pé, modificada pela modernidade como
uma testemunha do tempo. No alto da Forca, o forte que foi
cobiçado por portugueses e holandeses já não existe. Em seu lugar
foram construídos uma maternidade e um hospital. No mais,
resquícios e fragmentos ignorados ao longo da história.
Segundo moradores mais antigos, tudo que foi encontrado durante a
demolição do forte para construção do hospital teria sido levado
para os museus da Bahia. Os outros dois prédios mais antigos da
cidade, a Casa da Cultura, que não data da época de Calabar,
continua com a fachada de pé; já a antiga cadeira Pública está em
ruínas, totalmente destruída.
Os últimos dias de Calabar
Matias de Albuquerque, donatário da Capitania de Pernambuco,
tentou obter de volta o apoio de Calabar. Entretanto não conseguiu
e a partir daí passou a tramar a captura do militar. Na primeira
tentativa – segundo Craveiro Costa em seu livro História de
Alagoas – teria sido através de um primo de Calabar, Antonio
Fernandes, que não obteve êxito.
A segunda tentativa foi através do Sebastião Souto, compadre de
Calabar, que se infiltrou no exercito holandês para obter
informações sobre a movimentação das tropas e de Calabar.
Entretanto Calabar continuava vivo e lutando ao lado dos
holandeses dentro do forte existente em Porto Calvo.
Em 14 de março de 1636 os portugueses sitiaram Porto Calvo,
enquanto as tropas holandesas resistiam. Depois de vários dias de
cerco ao forte em Porto Calvo, famintos e sedentos os holandeses
sob o comando de Picard, teriam proposto, segundo o historiador
Craveiro Costa, um armistício – acordo para trégua.
Os portugueses queriam entre outras condições a entrega de
Calabar. Segundo Craveiro Costa, isto não foi aceito de inicio,
mas depois o próprio Calabar, teria concordado, para salvar o
exercito holandês. Assim foi feito e Domingos Fernandes Calabar
foi preso, torturado por três dias e depois enforcado. Seu corpo
foi esquartejado e suas partes colocadas em locais públicos pela
cidade de Porto Calvo, num ato de selvageria.
Craveiro Costa faz um relato dos
últimos momentos de Calabar
“ Ali estava o mameluco valente, e generoso para padecer morte
ignominiosa. Sereno, resignado, estóico, aquele lúgubre aparato
não o apavorava. A cabeça, altivamente levantada, num desafio à
posteridade, dominava os autores de seu suplicio e aos olhos por
sobre a multidão silenciosa fitava o cenário e derramavam-se
pelos montes nataes coroados de frondes imensas e pela casaria
tosca, onde viviam os da sua laia, de sangue indígena e de sangue
africano, escravos da gleba e do homem que ela se apossara.
Do pode militar da vila, onde Calabar acastelara a defesa da
Holanda naquelas paragens, já nada existia. Os vencedores haviam
em três dias arrasado as fortificações. O incêndio ainda lavrara,
aqui e ali, consumindo todo. Magotes de índios semi-nús e
imbecilizados no seu cativeiro, negros insensibilizados pelo
infortúnio, brancos combalidos pelos sofrimentos da jornada,
parados pelos lugares mais altos para verem melhor a consumação da
tragédia, eram espectadores indiferentes daquele lúgubre aparato
com que se punha fim á vida de um homem ainda hoje discutido. O
carrasco cumpriu o seu dever...
Calabar antecipou-se de cem anos a sua época. A sua deserção foi
um acontecimento prematuro da evolução histórica da raça. Cem anos
mais tarde, teria sido ele considerado um pronunciamento
patriótico pela definição da nacionalidade, em antagonismo radical
com portugueses”.
Em defesa de um herói com
subsídios da história
Que a história contada e reproduzida em livros são as versões dos
vencedores. Disto poucos duvidam. Mas com os novos subsídios de
pesquisas embasados em documentos históricos, novas versões surgem
para autenticar as anteriores ou acrescentar novos dados. É o caso
do historiador Ademário Lins, conhecido como “Calabar”, que afirma
subsidiado por documentos holandeses que Domingues Fernandes
Calabar foi um dos primeiros heróis da história brasileira.
“Documentos históricos comprovam que Calabar – grande estrategista
militar, munido de grandes ideais patrióticos e à frente de seu
tempo – mudou de bandeira porque acreditava que os holandeses,
dentre os demais invasores do Brasil, eram os mais interessados em
desenvolver o País”, colocou ao questionar o título de traidor do
herói. “A quem traiu Calabar? A igreja católica, a Espanha ou a
Portugal? Como pode-se trair em um País colonizado por culturas e
nações diferentes? Que não dar direito ao seu povo de ser
reconhecido”, justificou.
Ademário Lins remonta em seus estudos o panorama histórico da
época e as razões das quais fizeram Calabar a optar pelo lado
holandês. “Ao se habilitar em defender o lado holandês Calabar
gravou seu nome para sempre na história com uma corajosa decisão
com o objetivo de defender com patriotismo o Brasil em nome de um
desenvolvimento econômico, cultural e religioso”, falou ao
atribuir a Calabar a honra de ser um dos primeiros patriotas e
herói brasileiro que mal interpretado não foi exposto na história
oficial de Alagoas e do Brasil.
Porto Calvo, um sítio histórico
ignorado.
Do que resta da cidade histórica de Porto Calvo – berço da
resistência holandesa em Alagoas – parte está em ruínas, a outra
descaracterizada. Pouco na cidade lembra a importância histórica
do que foi o município no passado. As ruas descaracterizadas
respiram ar do presente e a memória da resistência holandesa na
região é esquecida pouco à pouco pelos moradores.
A exceção é o comerciante Adelmo Monteiro, apaixonado pela
história o comerciante que reconhece a importância do sítio
histórico em que vive, guarda com apreço peças do passado holandês
que garimpa entre os moradores desinteressados, na esperança de
abastecer o museu prometido que será construído na cidade. No seu
acervo pessoal que prefere denomina-lo como público. “Todos esses
objetos pertencem a cidade, apenas os guardo e tomo conta deles”
diz Adelmo que possui bolas de canhão de diversos calibres, moedas
da coroa portuguesa e holandesa, peças ornamentais cunhadas em
bronze na Holanda, fotos e jornal antigo que noticia fugas de
escravos.
Adelmo Monteiro fiel defensor da construção de um museu para a
cidade coloca que muito ainda existe da passagem holandesa na
cidade. “São vestígios do passado que estão enterrados por toda
região. É comum as pessoas mais conscientes me fazerem doações, às
vezes, fico sabendo que crianças estão brincando com bolas de
canhão negocio com elas e trago para o acervo” diz ao lamentar o
desaparecimento dos 8 canhões de fabricação espanhola que
desapareceram da cidade. “Ninguém sabe onde estão ou quem os
levou, muitas peças já saíram para outros Estados, e o pouco que
resta queremos que seja expostos de forma segura na cidade”, fala
em defesa da construção do museu.
Apreensivo com falta de cuidado dos artefatos históricos, Adelmo
Monteiro chegou a montar com outros moradores um grupo de
escavações para descobrir objetos antigos. “Paramos as escavações
à pedido do IPHAN que nos garantiu enviar um arqueólogo e a
reforçar a realização do museu”, expõe.
Outros moradores em escavações simples em sítios e na cidade já
encontraram ossadas acorrentadas, cachimbos, capacetes, moedas e
outros objetos antigos.
Fonte: O Jornal |